A Turquia vinha sendo citada, ao longo dos últimos anos, como um exemplo de sistema a ser seguido pelos países islâmicos. Embora a quase totalidade de sua população seja adepta do islamismo, a Turquia vinha se mantendo como um Estado secular, ou seja, sem a interferência da religião. Esse status foi estabelecido em 1924, por Mustafa Kemal Ataturk, que fundou o Estado secular moderno turco, depois do colapso do Império Otomano, ao final da Segunda Guerra. Ele aboliu o sultanato, a poligamia, o islamismo como religião de Estado e instituiu o casamento civil, entre outras medidas modernizantes. Ataturk, que era general, estabeleceu que o Exército seria o guardião da democracia turca. É verdade que, em algumas ocasiões, “para manter a ordem”, os militares interromperam o processo democrático, em, golpes muito parecidos com os vistos aqui pela América Latina.
Assim, por manter-se sob um sistema democrático, sem interferência da religião, a Turquia era sempre apontada como um exemplo a ser seguido pelo mundo muçulmano, onde religião e Estado se confundem. Em muitos países árabes, por exemplo, o Corão é que funciona como Constituição. Nos últimos tempos, sob o governo de Recep Tayyip Erdogan, esta separação começou a balançar. Proibição de bebida alcoólica, de aborto e de beijo em lugar público foram medidas que começaram a dar tons de islã no país, o que, de imediato, gerou manifestações em contrário.
Erdogan assumiu como primeiro-ministro em 2003 e governou como tal até 2014, dentro da democracia parlamentarista vigente no país. Terminado seu madato, tratou de eleger-se presidente e de movimentar-se no sentido de mudar a Constituição, para transformar o regime em presidencialista. O que conseguiu através do plebiscito realizado no domingo 15, quando, segundo os números oficiais, conseguiu 51% de sim. Porém, desde que foram divulgados os resultados passaram a haver críticas de opositores e de observadores internacionais, que consideraram a eleição fraudulenta. A própria União Europeia se manifestou neste sentido. Erdogan, no entanto, disse que “a eleição foi a mais democrática já vista em qualquer país do Ocidente”. E mais, que “a Turquia vai ignorar os resultados dos observadores internacionais”. Ou seja, declaradamente, o país para a ter um regime de força.