O Egito está se encaminhou para uma situação em que tanto pode seguir o rumo para o restabelecimento de uma democracia plena ou se encaminhar para uma radical disputa de poderes entre o presidente Mohamed Mursi, as Forças Armadas e a Corte de Justiça. Mursi, que é integrante da Irmandade Muçulmana, foi empossado a 30 de junho, como o primeiro presidente livremente eleito do país. Recebeu o poder dos militares, que antes trataram de mudar a Constituição, fazendo com que o comando e o orçamento militar não ficassem atrelados ao executivo, mas, às próprias Forças Armadas.
Antes da posse de Musri fora eleito um Parlamento, também dominado pela Irmandade Muçulmana. Este Parlamento, no entanto, fora destituído a 15 de junho, por ato dos militares, atendendo decisão da Corte de Justiça. Ocorre que, pela lei eleitoral, o Parlamento deveria ser composto por deputados eleitos por partidos políticos e por candidatos independentes. E o percentual para os independentes não fora reservado, de modo que não tiveram acento na Casa. Foi em atenção a isto que a Corte decidiu pela anulação.
Musri, porém, num claro enfrentamento com a Corte de Justiça e com os militares, resolveu dar posse ao Parlamento, tendo ao mesmo tempo anunciado a convocação de novas eleições, para dentre de 60 dias, com a finalidade de eleger um novo Parlamento, de acordo com as normas eleitorais. A Corte, no entanto, manteve a sua decisão de anular a posse do atual Parlamento. E Mursi, de sua parte, manteve a decisão de dar posse ao Parlamento, o qual realizou sessão nesta terça-feira.
País mais populoso do mundo árabe (80,4 milhões), o Egito completa 17 meses da queda do ditador Hosni Mubarak mergulhado num vácuo legal, sem Constituição. Mursi foi o primeiro presidente eleito livremente no Egito e assumiu com a tarefa de liderar a transição à democracia no país.
O país é conhecido pela sua antiga civilização e por alguns dos monumentos mais famosos do mundo, como as pirâmides de Gizé e a Grande Esfinge. A sul, a cidade de Luxor abriga diversos sítios antigos, como o templo de Karnak e o vale dos Reis. O Egito é reconhecido como um país política e culturalmente importante do Médio Oriente e do Norte de África. O país foi ocupado pelos árabes, que introduzem o islamismo em 639 e, mais tarde, pelos turcos otomanos. No entanto, desde os anos 1800 passou a ter uma crescente influência europeia, que tem como marco a construção do canal de Suez, inaugurado em 1869. A presença europeia chega ao auge em 1882, com a ocupação britânica. Em 1922, o país declara a independência e adota o regime monárquico, sob Faruk I. A monarquia foi derrubada em 1952, através de um golpe de jovens oficiais liderado por Gamal Abdel Nasser, que se torna presidente, adotando uma política modernizante e fortemente nacionalista. Lançou também um movimento de unificação árabe e manteve aproximação com a União soviética. E ainda liderou o mundo árabe nas guerras contra Israel. Nasser morreu em 1970, sendo substituído pelo seu vice-presidente Anuar Sadat. Este promoveu uma aproximação com os Estados Unidos e assinou um histórico acordo de paz com Israel, em 1979. Dois anos depois foi assassinado por fundamentalistas islâmicos, sendo substituído por sue vice Hosni Mubarak, o qual governou o país com mão de ferro, até a sua deposição pelo movimento chamado “Primavera Árabe”. Todos os presidentes se elegeram e reelegeram graças a uma máquina governamental, com eleições dirigidas e sem competidor. Assim é que Mursi é o primeiro presidente eleito pelo voto livre no país.