UMA ELEIÇÃO IMPERCEPTÍVEL PARA O ESTRANGEIRO
– j.soares@cpovo.net –
Cristina Fernandes de Kirchner teve uma vitória aplastante, mais de 40% de diferença para o segundo colocado. Um dado histórico. Vai governar o país por mais quatro anos. Fato que levou milhares de pessoas a comemorar junta à Casa Rosada e junto ao Obelisco da 9 de Julho. No entanto, o turista que circulou neste domingo pelas ruas de Buenos Aires, antes das 18 horas, não se deu conta de que o país estava realizando uma eleição para presidente e vice da República e para a renovação de 130 cadeiras de deputados, 24 de senadores e nover governadores provinciais. Salvo os luminosos e alguns muros, não se percebia propaganda eleitoral e tampouco mobilização de cabos eleitorais. Muito menos os “santinhos” e panfletos que costumam inundar as ruas de nossas cidades no Brasil quando de uma eleição. Ocorre que aqui este tipo de propaganda foi proibido. A única forma de os candidatos fazerem sua divulgação foi através dos veículos de comunicação. Os tradicionais, jornal, rádio e televisão, e os inovadores, como twitter, facebook, etc. Circulei pelas ruas Lavalle e Florida e os únicos panfletos que distribuíam eram dos restaurantes ou das lojas. Nada sobre a política. Nesta caso, uma cidade limpa.
A confirmação da vitória de Cristina Kirchner, com maioria absoluta no Congresso, deixa uma indagação sobre o futuro do país. A revista “Notícias”, que é uma espécie de “Veja” daqui, questiona se ela irá governar como uma estadista, buscando a conciliação nacional, ou será uma vingadora, pisando nos seus opositores? A grande preocupação dos argentinos é com a corrupção e com o futuro da economia. Hoje, um em cada quatro argentinos depende de algum programa de ajuda do governo. Programas que fazem o enriquecimento daqueles que os manejam e o endividamento do Estado. O país vive um momento econômico positivo, com crescimento do PIB e geração de empregos, no entanto, há o temor de que, pelo endividamento do Estado, que faz elevar a inflação – de 25% segundo organismos independentes, embora o governo fale em 8% – possa, ali adiante, vir a se repetir o que aconteceu com o governo Menem. Naquela ocasião (1989-1999) o país viveu a ilusão de que sua moeda, o peso, valia o mesmo que o dólar. Quando acabou a ilusão o país quebrou. Foram quase dez anos para a recuperação. Daí o medo de que o modelo dos K, ou seja, dos Kirchner, possa também falir.
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