Lula fracassa como mediador

28.11.2009

(Artigo publicado no Correio do Povo, de domingo, 29/11/09)
Tivemos nos últimos dias um périplo de dirigentes do Oriente Médio ao Brasil, na explícita tentativa de colocar o nosso emergente país no centro das discussões sobre a região. Mais especificamente, tornar o Brasil um mediador das questões que envolvem israelenses e palestinos e da questão referente ao programa nuclear iraniano. Tenho colocado em dúvida a capacidade do Brasil de exercer esse papel, tendo em vista que nem os conflitos regionais o nosso país tem conseguido negociar. E a prova mais contundente deste aspecto veio nesta semana. O presidente Lula havia dito que pretendia aproveitar a Cúpula Amazônica, terminada quinta-feira em Manaus, para colocar frente a frente os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Álvaro Uribe, da Colômbia, para estabelecer a paz entre ambos. O que aconteceu? Nenhum dos dois foi a Manaus! Assim como também não foram os outros bolivarianos, Rafael Correa, do Equador, e Evo Morales, da Bolívia. Foi um vexame. O francês Nicolas Sarkozy se deslocou da Europa para cá, para participar de uma reunião de assessores. Ou seja, péssimo para o prestígio do presidente Lula.
Como se não bastasse, está acabando a lua de mel entre Lula e Obama. O presidente americano pedira ao brasileiro que interferisse junto ao iraniano Mahmoud Ahmadinejad, em sua vinda ao Brasil, procurando convencê-lo a aceitar a proposta feita pelo Ocidente para que o urânio do Irã seja enriquecido na França e na Rússia. Forma encontrada para controlar o programa nuclear iraniano. Pois Lula nem tocou no assunto. Limitou-se a dizer que o Irã tinha direito ao uso da energia nuclear com fins pacíficos, mas que deveria seguir as normas de segurança internacionais. Não se referiu à proposta objeto do pedido de Obama. Talvez aí, uma pequena decepção do presidente americano.
Mas há um outro fato que está colocando os dois dirigentes em rota de colisão. Refere-se a Honduras. Lula tem reiterado que não aceitará o resultado da eleição deste domingo se não houver o retorno de Zelaya ao governo. Obama já disse que irá reconhecer o governante que resultar das urnas. O assessor de Assuntos Internacionais da presidência da República, Marco Aurélio Garcia, minimizou o conflito entre o Brasil e os EUA em torno de Honduras, dizendo que inclusive falou por telefone com o assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, general James Jones. Segundo Garcia, o conflito teria sido criado pela mídia. E que não há um “estranhamento” com relação ao governo americano, mas “percepções” diferentes, especialmente no caso de Honduras. Só que essas percepções diferentes colocam EUA e Brasil em lados opostos com relação à crise de Honduras. O governo Obama já declarou que vai reconhecer o governo que resultar eleito do pleito do próximo domingo. O Brasil diz que não dá apoio para um golpe branco, conforme ressaltou o chanceler Celso Amorim. Não reconhece a eleição sem a volta de Zelaya ao governo. Ora, pelo que se depreende da situação de Honduras, Zelaya não volta mais ao governo. Está enfraquecido. E mesmo que voltasse, seria apenas pró-forma. E não apagaria o golpe que o destituiu. Então, golpe houve e a restituição à via democrática pode se dar tanto pela volta de Zelaya como pelo novo governo a ser eleito. A dedução é de que, se o pleito transcorrer sem maiores incidentes, não haverá como contestá-lo. A maioria dos países irá acompanhar o posicionamento dos EUA. Até porque, o próprio Zelaya já declarou que, se houver 80% de comparecimento às urnas, ele irá reconhecer o novo governante. Ou seja, Lula vai ficar distante até daquele que está apoiando.

Post to Twitter Post to Delicious Post to Digg Post to Facebook Post to StumbleUpon

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Security Code:

 

BUSCA

RÁDIO

NEWSLETTER

receber não receber

ARQUIVO

Login Assine o RSS Twitter


Esse blog foi criado com Wordpress . Todos os textos publicados são de autoria de Jurandir Soares. Dúvidas, críticas e comentários, entre em contato conosco .