Sentimento de mudança nos EUA
Uma coisa já é certa na presente eleição americana. Ela entra para a história como recordista de participação. Nunca houve uma mobilização tão grande para votar como no presente pleito. E o sentimento, e aí vem algo que fica no terreno das hipóteses, mas o sentimento é de que toda esta mobilização se dá pela vontade de mudar. Pela vontade de acabar com o período de governo Bush, que deixa como legado a guerra no Iraque e a crise econômica. O governo Bush foi tão ruim que os republicanos resolveram que o presidente deveria ficar recluso à Casa Branca no dia da votação. Assim, diferentemente do que acontece nos países democráticos, em que o chefe do governo é um figura de realce no dia da votação, nos EUA teve que ser diferente. Bush votou pelo correio. Não apareceu para não prejudicar ainda mais o candidato republicano John McCain.
E é justamente este somatório de fatos, mobilização do eleitorado, fim do governo Bush, sentimento de mudança, que levou à vitória de Barack Obama. E uma vitória que suplantou em muito os 270 delegados necessários para a vitória.
A vitória de Barack Obama na eleição para a presidência dos EUA, que vinha aos poucos sendo desenhada, praticamente se confirmou com o extraordinário comparecimento de eleitores na votação. O maior da história do país. O que deu a demonstração da vontade de mudar por parte da população. E essa vontade estava diretamente relacionada ao fim da era Bush. Foram oito anos de um governo que afundou o país.
A propósito, em qualquer país democrático é comum o presidente ter uma participação ativa nas eleições, pedindo votos para o candidato de seu partido e se tornando um destaque da imprensa na hora da votação. Com Bush foi diferente. Sentindo que sua presença no processo eleitoral seria prejudicial a McCain, os republicanos esconderam Bush na Casa Branca. Ele nem saiu para votar. Votou pelo correio.
Bush gerou dois grandes problemas para os EUA: o Iraque e a crise econômica. O Iraque pesava para o eleitor, mas não o suficiente para determinar um derrota republicana. Tanto que quando começou a campanha, lá por janeiro, McCain estava à frente nas pesquisas. Quando veio a crise econômica é que a situação mudou. Aí os americanos passaram a sentir na carne os efeitos, perdendo sua casa, perdendo seu emprego. E aí Obama disparou, surgindo como a grande esperança de mudança. Consequentemente, aumenta a responsabilidade para o primeiro negro a chegar à Casa Branca.
IMAGEM DE ARROGÂNCIA
Ao assumir a presidência dos EUA em janeiro, Barack Obama vai se defrontar com uma questão crucial: a imagem dos EUA perante os seus parceiros mundiais. Esta imagem é hoje a pior possível. A arrogância é a sua definição. Pois foi com arrogância, por exemplo, que George Bush passou por cima de seus aliados da França, Alemanha e Rússia, entre outros, para fazer a guerra contra o Iraque. A propósito deste fato, a secretário de Estado do tempo do governo Clinton Madeleine Allbright, disse que “o Iraque vai passar para a história como o maior desastre da política externa dos EUA. Maior do que o Vietnã”. Não se pode esquecer que a guerra no Iraque foi feita em nome de uma mentira: as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que nunca existiram. O então secretário de Estado de Bush, Colin Powell, fez o ridículo papel de ir à ONU apresentar dados para justificar a guerra no Iraque. Dados, depois comprovados, que eram falsos. Magoado pelo vexame a que foi levado naquela ocasião, Powell manifestou agora o seu apoio a Obama. A arrogância dos EUA esteve presente nas atitudes dos senhores da guerra: Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz e Paul Bremer.
O ódio aos Estados Unidos está presente hoje no Afeganistão, país que havia sido libertado com a ajuda americana. Tudo porque o governo Bush, depois de tirar o nefasto Talibã do poder e colocar no comando um aliado, deixou o país de lado para atacar o Iraque. Ataque, é sempre bom lembrar, em nome das corporações do petróleo, das armas e da construção. Hoje, os EUA só usam a aviação para atuar no Afeganistão. Assim, para combater os milicianos do Talibã e da Al Qaeda, que se refugiam nas montanhas do sul do país, usam o bombardeio por aviões. E assim, junto com supostos terroristas, matam mulheres, crianças e velhos. Ou seja, geram o ódio.
Reverter esta situação será tarefa para Barack Obama. Mas esta tarefa vai levar tempo. Será preciso, primeiro, tirar as tropas do Iraque. Esta tarefa não será concluída antes de dezembro de 2011. Paralelamente, terá que ser feito o deslocamento dessas tropas para o Afeganistão e, possivelmente, também para o Paquistão. Ação para refazer boa parte do que já fora feito e foi perdido, e concluir o que ficou inconcluso. Tudo isto precisará ser feito com muita habilidade, sob pena de os milicianos conquistarem os corações e mentes da população da região.
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