Haverá diálogo agora na Colômbia?

26.5.2008

Bem ao estilo dos falecidos regimes comunistas do Leste Europeu, a guerrilha das FARC levou quase dois meses para comunicar a morte de seu comandante. Somente agora se fica sabendo que Manuel Marulando, o Tirofijo, tiro certeiro, como era chamado, morreu no dia 26 de março. Já se sabia há mais tempo que ele estava doente. Ao que tudo indica, sofria de câncer e o comando das Farc já vinha sendo conduzido pelo porta-voz e número 2 da organização, Raúl Reyes, que foi abatido pelo exército colombiano a 1º de março em ação desenvolvida em território equatoriano. Assim, em menos de um mês, a organização narcoguerrilheira perde suas duas principais lideranças. E na segunda-feira que passou, a guerrilheira Nelly Ávalia Moreno, conhecida como Karina, que comandava uma das unidades das Farc, se entregou para o exército colombiano.

É claro que, apesar de profundamente abatida, a organização não iria ficar sem liderança. E a nova liderança que desponta é o antropólogo Alfonso Cano, uma figura de barba muito espessa e óculos redondos, que tem 47 ordens de captura e uma circular vermelha da Interpol (Organização Internacional da Polícia Criminal) sob acusações de rebelião, terrorismo, homicídio e seqüestro. Desde o ano 2000, é o responsável pelo Movimento Bolivariano da Nova Colômbia, um projeto político da principal guerrilha colombiana. Como se trata um “movimento bolivariano”, já dá para imaginar quem possa estar por traz com financiamento. Aliás, o presidente venezuelano Hugo Chávez ficou mais implicado em suas ligações com as Farc a partir da autenticidade que foi dada pela Interpol aos dados dos três computadores apreendidos pelo exército colombiano no local em que abateu Raul Reyes.

Mas, voltando à nova liderança, se tiver bom senso, vai aproveitar o momento para um acordo com o governo, utilizando o grande trunfo que tem nas mãos, que são os reféns políticos. Porém, é muita coisa esperar bom senso de quem, no atual contexto internacional, ainda acredita num tipo de regime que ruiu há mais de uma década na Europa e que está caduco em Cuba.

No entanto, com a morte de Marulanda e a ascensão de Alfonso Cano ao posto de comandante das Farc, surge a expectativa de que, de repente, possa haver um diálogo entre a guerrilha e o governo. Quem levanta esta possibilidade é o ex-presidente da Colômbia, Andrés Patrana. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ele diz Cano representa a ala política das Farc. E, inclusive, já teria manifestado a disposição de negociar quando ele, Pastrana, era presidente, em maio de 1999. Pastrana governou de 98 a 2004. Naquela ocasião, Cano não conseguiu levar adiante o diálogo com o governo porque foi derrotado pela ala “militar” liderada por Mono Jojoy, a qual entendia que deveria continuar com suas ações.

Há outros antecedentes ainda. Alfonso Cano representou as Farc nos diálogos frustrados com o governo do presidente César Gaviria (1990-1994) em Caracas e na localidade mexicana de Tlaxcala, em 1991 e 1992.

Por isto, o ex-presidente Pastrana diz acreditar que possa se abrir agora uma possibilidade para o diálogo. E Cano, como já disse, tem um grande trunfo nas mãos para negociar, que são os reféns políticos. Quem sabe, esteja surgindo aí uma oportunidade histórica para um entendimento na Colômbia, depois de 44 anos de ação guerrilheira comandada por Marulanda.

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