O Brasil e a eleição paraguaia

19.4.2008

(Artigo publicado na edição de domingo, 20/04, do Correio do Povo)

Para o grande público, as eleições presidenciais deste domingo no Paraguai tem despertado pouco interesse no Brasil. Afinal, teoricamente, o que temos do Paraguai é a energia elétrica de Itaipu e o fornecimento de mercadorias contrabandeadas para os sacoleiros em Ciudad del Leste. No entanto, há muito mais no relacionamento entre os dois países, que se constituem nos parceiros mais pobre e mais rico do Mercosul. E o Mercosul, apesar de todas suas idiossincrasias, é fator fundamental de aproximação entre os dois países, com vistas a crescimento conjunto.

Este crescimento passa inclusive por Itaipu, cuja energia o Paraguai ocupa apenas 5%. O próprio governo brasileiro está incentivando Assunção a usar mais dessa energia para atrair investidores para o país. Claro que esses investimentos passam também pelas questões legais. Na avaliação do Itamaraty, o Paraguai peca por falta de regras claras. “Um dos gargalos do país é a sua insegurança jurídica. As estruturas do judiciário ainda são muito influenciadas politicamente. E essa insegurança cria dificuldades para as empresas que lá querem se estabelecer”, segundo avaliação do governo brasileiro.

Outra questão que vai requerer uma ação conjunta de Brasília e Assunção é da entrada cada vez crescente de brasileiros no Paraguai, para produzir soja, algodão e outros produtos agrícolas. Este é outro assunto que tem sido objeto de divergências entre os candidatos. O fato é que o Brasil, como parceiro maior, tem a responsabilidade de impulsionar o crescimento do Paraguai, porque isto é importante para as empresas brasileiras e, por extensão, para os brasileiros e para os paraguaios. Seja quem for o presidente, é consenso no Itamaraty que o Brasil precisa ajudar o Paraguai a se desenvolver. O Brasil é o parceiro comercial número um do Paraguai. O Itamaraty defende a concessão de financiamentos do BNDES para empresas paraguaias, sem a necessidade de associação com brasileiras, como é norma hoje para parceiros de qualquer país da América do Sul. Para o governo brasileiro, o que falta é maior objetividade de Assunção na definição de empreendimentos viáveis. E isto é o que será cobrado do futuro governante.

Mas aí vem a pergunta: por que o Brasil tem que se preocupar com o Paraguai? Da mesma forma como Alemanha e França se preocuparam com Portugal, Espanha e Grécia quando formaram a então Comunidade Econômica Européia. Ou seja, os países ricos da comunidade injetaram dinheiro nos países pobres. Mas isto, conforme ressaltou em palestra aqui em Porto Alegre, quinta-feira, o ex-vice-presidente da Argentina Carlos Alvarez, não foi por benemerência. Foi simplesmente para dar condições de desenvolvimento para estes países mais pobres, de modo a transformá-los em consumidores e em local para receber as empresas dos países mais ricos.

A relação aqui é a mesma. Mas isto não quer dizer que seja uma relação de exploração. É de crescimento conjunto. Um dos caminhos defendidos pelo Itamaraty é a integração produtiva do Paraguai à cadeia industrial brasileira, aproveitando o grande potencial agroindustrial exportador do vizinho país. Afinal, o objetivo do processo de integração é todos crescerem juntos.

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