Um plano para israelenses e palestinos

19.3.2007

Depois de muitas discussões, os palestinos conseguiram chegar a um consenso sobre a formação de seu governo, unindo os grupos Hamas e Fatah, que protagonizaram nos últimos meses confrontos que deixaram dezenas de mortos. Como era de se esperar, o novo governo não tem o reconhecimento de Israel, porque um dos seus componentes, o Hamas, não reconhece a existência de Israel. Com essa reciprocidade de não reconhecimento, a dedução óbvia é que o processo de paz entre israelenses e palestinos não deve avançar.

A comunidade internacional, no entanto, está desenvolvendo um grande esforço no sentido de destravar as negociações. EUA, Rússia, União Européia e ONU, que compõem o grupo negociador, querem se valer desse passo que foi dado pelos palestinos, quanto à formação de um governo de união nacional. Esse passo significa a retomada da ajuda que é fornecida por eles à Autoridade Nacional Palestina e que foi suspensa há um ano. E é essa ajuda que mantém funcionando a máquina administrativa palestina. A sua suspensão só fez aumentar as desavenças e o radicalismo, o que significou um crescimento do Hamas. Por isto o grupo negociador quer retomar logo essa ajuda, como forma de neutralizar o avanço do Hamas.

O problema vai ser o grupo convencer Israel a negociar com esse novo governo palestino. O próprio EUA não quer saber de um governo que não reconheça Israel. Mesmo assim há sérias especulações de que a secretária de Estado Condoleeza Rice, nos seus esforços para forjar um novo plano de paz para o Oriente Médio, deve resgatar um plano que fora apresentado pela Arábia Saudita em 2002. E com base nesse plano, o governo americano estaria pressionando a casa real saudita para que exerça sua influência na região.

A proposta saudita oferecia a Israel pleno reconhecimento e uma paz permanente com os estados árabes, em troca de três pontos: uma retirada israelense para as fronteiras de antes de 1967; o estabelecimento de uma Palestina independente, com capital em Jerusalém oriental; e uma “solução justa e acordada” sobre o tema dos refugiados palestinos e seus descendentes, em consonância com a resolução 194 da Assembléia Geral das Nações Unidas, sancionada em 1948. Essa resolução estabelecia que os palestinos tinham o direito de voltar aos seus lugares em Israel ou de serem recompensados pelos mesmos se não quisessem voltar.

Embora apresentada há quatro anos, essa proposta é mais antiga. Ela já fez parte das negociações travadas nos fins dos anos 90 entre Yasser Arafat e Ehud Barak. Isto foi testemunhado por Dennis Ross, que foi negociador dos EUA para o Oriente Médio, de 1988 a 2000. No livro “The Missing Peace – The inside story of the fight for Middle East Peace”, ele conta que essa proposta já havia sido aceita por Barak. O tema não avançou por Arafat resolveu obter mais vantagens. Ou seja, forçou demais e a corda arrebentou. Barak acabou destituído, Bill Clinton, que mediava as negociações deixou o governo dos EUA, com o que, o quadro mudou completamente.

No atual contexto é muito difícil que Israel venha aceitar aquela proposta. A não ser que o governo americano force a barra em busca da solução do problema palestino, como força de minimizar o seu fracasso no Iraque. Afinal, em política tudo é possível.

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